Onças na varanda, tucano na janela: o que está por trás da ?invasão? de animais em MS?
Quem invade o território de quem? Animais silvestres têm cada vez menos território natural em MS e acham comida facilmente nas cidades
Publicada em 29/04/2026 às 15:26h | midiamax.com.br | 261 visualizações
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(Foto: midiamax.com.br)
Não é de hoje: as pessoas no resto do Brasil sempre acharam que em Mato Grosso do Sul os animais silivestres andam soltos pelas ruas da cidade. De fato, os flagras cada vez mais comuns reforçam a fama e não tem como negar que a invasão dos bichos em MS é ‘meio verdade’. Meio, porque é preciso entenderquem invade o território de quem. Assim, por trás da invasão das cidades pelos animais está muito mais que a proximidade com a natureza.
Onças, quatis, antas, tucanos, tamanduás… A lista de animais silvestres que apareceram por cidades de Mato Grosso do Sul só nos últimos 30 dias é extensa. Em alguns casos, são fofos visitantes que encantam moradores e turistas.
Na opinião de especialista ouvido pela reportagem, o crescimento das cidades e o desmatamento causam fragmentação de habitats naturais. “Isso faz com que muitos animais percam acesso a alimentos, abrigo e caminhos de migração”, diz o biólogo Lui Henrique Valverde.
“Quando chegam à cidade, não é por ‘curiosidade’ ou ‘invasão’, mas frequentemente por necessidade de sobrevivência”, explica.
Com cada vez menos territórios, animais silvestres chegam às cidades e encontram alimentos muito mais facilmente que na natureza: desde indefesos animais domésticos até restos de comida no lixo, árvores frutíferas e ração deixada em calçadas. Além disso, há quem ofereça comida para eles. “Com o tempo, isso pode alterar profundamente o comportamento desses animais”, diz o biólogo.
Hábitos humanos mudam o comportamento animal
Dessa forma, animais que antes costumavam evitar o contato com humanos deixam de sentir medo, adaptam suas dietas e até mesmo deixam de desempenhar suas funções ecológicas.
Na opinião do biólogo Lui Henrique Valverde, não basta orientar a não alimentar animais silvestres ou a preservar a natureza. “É fundamental entender a complexidade desses problemas, como o modelo de desenvolvimento urbano que impacta os ecossistemas“. Ou seja, as mudanças não podem se limitar apenas a ações individuais.
“É preciso haver políticas públicas, como planejamento urbano que considere corredores ecológicos e áreas de preservação; gestão adequada de resíduos, evitando que o lixo se torne fonte de alimento; monitoramento e manejo da fauna silvestre; educação ambiental e fiscalização mais severa dos órgãos ambientais”, diz o especialista.
Por fim, o biólogo Lui Henrique Valverde opina que movimentos socioambientais e iniciativas comunitárias têm um papel muito importante. “São eles que muitas vezes pressionam o Poder Público, produzem conhecimento local, promovem ações educativas e constroem novas formas de relação com o território/natureza.”
Na última semana, um engenheiro agrônomo deCampo Grandeteve umaatitude corajosa ao encontrar uma onça-pintadano Pantanal de MS. EmMiranda, o animal surgiu em seu caminho e o encarou por alguns instantes. A onça deu alguns passos com olhos fixos sobre o curioso, até se embrenhar no mato, que tomava conta do local. Ele desceu da caminhonete para tentar gravá-la camuflada na mata.
No início do mês, o piloteiro de um barco avistou uma onça-pintada no Pantanal sul-mato-grossense. Assim, por volta das 19h, o trabalhador chegava pelo Rio Miranda à Barra do Aquidauana, na base da PMA. O local conhecido como Touro Morto. Foi lá onde o caseiro Jorge Ávalo foi atacado e morto por uma onça, em abril do ano passado.
Animais silvestres não têm fronteira
Animais não têm fronteiras, e outra onça foi vista por moradores de Fortuna Guazu, no Paraguai, a 30 km de Ponta Porã. O animal caminhava a poucos metros de uma estrada da região na manhã de sábado (25), o que reacendeu o alerta entre a população local. Nas imagens feitas por morador da cidade, o felino aparece em área próxima a residências, reforçando o temor de que a presença da espécie não seja um caso isolado.
Já no fim de março, um pescador profissional foi surpreendido por uma onça-pintada próxima a seu barco, em um rancho no Pantanal. O avistamento repercutiu entre moradores e pescadores da região, que entraram em alerta com o nível da aproximação do animal. O local contava com vários pertences espalhados pelo trecho do rancho, bem ao lado do barracão, instalado sobre a água. Em Campo Grande, não é raro encontrar antas perambulando pela cidade. No primeiro dia de abril, uma anta foi flagrada passeando por um condomínio de alto padrão da Capital. A anta não parece se intimidar com a presença da mulher que faz a gravação. Ela se aproxima e depois corre quando a mulher chega mais perto. Em seguida, volta a ficar mais próxima da grade e até encara a funcionária do condomínio.
Já na última quinta-feira (23), dois animais desta espécie foram vistos pela Capital.
Na madrugada, campo-grandenses foram surpreendidos com o passeio de uma anta pela Rua Jeribá, no bairro Chácara Cachoeira. Vídeo registrado por uma farmacêutica que trabalha na região mostra o animal caminhando apressado pela via. Essa não seria a primeira aparição da anta na região.
Na noite de 8 de abril, por volta das 19h, a equipe de salvamento do CBMMS (Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul) de Ladário, cidade a 426 km de Campo Grande, foi acionada para atendimento de ocorrência envolvendo um tamanduá-mirim. O animal silvestre estava em cima de uma aceroleira desde o início da manhã e não conseguia descer, por medo de cães que estavam no local.
No dia 3 de abril, o Corpo de Bombeiros de Corumbá fez força-tarefa para resgatar um tucano preso na copa de uma palmeira-imperial de seis metros de altura. A equipe identificou que a ave estava com uma pata presa em uma linha de pipa. Após ser retirado do local, o animal foi encaminhado à Fundação de Meio Ambiente de Corumbá, onde receberá os cuidados necessários.
No mesmo dia, os bombeiros foram acionados para resgatar um gambá que entrou em um comércio da Rua João Goulart, no bairro Santo Antônio. O animalzinho estava escondido embaixo do balção do espaço. Após a captura, foi constatado que o animal não apresentava ferimentos. Diante disso, a guarnição realizou a soltura em uma área mais afastada da região urbana.
Já no fim de março, um tucano desceu de uma árvore e foi até um pintor, que tomava tereré sentado na calçada de uma casa, em Inocência. O animal bebeu água e ainda comeu um pão oferecido pelo “colega”, em Mato Grosso do Sul. A ave pareceu bem familiarizada com a vida urbana. Curioso com os itens, o tucano até deu uma “bicadinha” na erva do tereré.
Velório do quati
Já na última quinta-feira (23), uma cena triste escancarou uma realidade com a qual os moradores do bairro Silvia Regina, em Campo Grande, convivem há anos. No asfalto, o corpo de um quati permaneceu imóvel após ele ser atropelado. Do outro lado da calçada, próximo à reserva, outros animais aguardaram inquietos. Alguns se aproximaram, cheiraram e pareceram tentar socorrê-lo, como se não quisessem deixá-lo ali, sozinho.
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